um tonto

parei de beber
e saio pra bares 
mais vezes que antes.
vez por outra,
ao redor das mesas,
procuro acompanhar o ritmo,
que muitas vezes desentoo
e faço graça pra reparar,
não passo de um chato.
tento envolver meus camaradas,
com as voltas da sobriedade,
quero agradar os tontos alegres
e eles vão pra outro lado,
fingindo não ouvir,
o meu papo chato.
sozinho na mesa,
não raro quero um trago
e bebo escondido de mim,
essa maldita cachaça,
que me deixa enjoado.
ao fundo da garrafa vou,
e agora já sou trapo,
são tantos papos, tontos sapos
e o tonto chato papa tanto,
que os tontos alegres voltam
e fingem perceber,
que a garrafa está ali
e eu não.

samambaia

sim, eu sou forte,
luto e saio no tapa se preciso
for.
mas é que, ando meio caído
e pelos cantos me sentindo confortável.
deve ser aquela vontade,
de admirar mais do que atuar,
ser planta sem flor, sabe?

carlos drummond de andrade (1942)

"lutar com palavras é a luta mais vã. entanto lutamos mal rompe a manhã. são muitas, eu pouco. algumas, tão fortes como o javali. não me julgo louco. se o fosse, teria poder de encantá-las. mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para o meu sustento num dia de vida. deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem sevícia que as traga de novo ao centro da praça."

(re)encontros

conhecer alguem é conhecer-se, construir.
simpatizar com alguem é reconhecer-se, reconstruir.
compartilhar, redescobrindo detalhes e, a partir do lembrado, ser o que já se é.
uma explicação pros que procuram, isso é amor e qualquer semelhança com a realidade, é pura ilusão de ótica.
atenção, quando acordar, não se iluda.

aquela antiga dedicatória...

um presente velho como o sentimento.
perdeu o brilho, desgastou a capa,
amassou e amarelou as páginas,
amargou e apagou as palavras.
nem por isso está morto,
é velho e vivo, ainda vivo.
o presente pulsa, pulsa o presente.