forough farrokhzad

"detrás da janela, 
é a noite que treme 
e é a terra que para de girar.
detrás desta janela, 
um desconhecido inquieta-se 
por mim e por ti."

por não estarem distraídos, do livro a descoberta do mundo por clarice lispector

"havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. como eles admiravam estarem juntos!
até que tudo se transformou em não. tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. então a grande dança dos erros. o cerimonial das palavras desacertadas. ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. no entanto ele que estava ali. tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

doce ilusão

levante a cabeça, fofura! relaxe.
estou de frente pra você.
abra os olhos, querida! me encare.
estou de frente pra você.
olhe nos meus olhos, doçura! me enxergue.
estou de frente pra você.
abra um sorriso, meu amor! me beije.
estou de frente pra você.
sinta meu calor, minha vida! me abrace.
estou de frente pra você.
inspire fundo, meu bem! respire comigo.
estou de frente pra você.

pernas trêmulas

involuntárias
descontroladas
balancê
bate joelho
treme terra

pernas trêmulas

ontem, meu olhar, fazia cliques por onde olhava.

o vento levando os cabelos da mulher que adimirava o movimento, feito por ele mesmo, numa poça de chuva.
o encontro na madrugada de um casal numa longa e escura rua. ela, vinha embaixo do guarda chuva e ele, com as mãos nos bolsos do casaco e com capuz na cabeça. andavam um ao encontro do outro, na cadencia da chuva que caía constante e leve, leve chuva...
pela falta de luz, o jogo de sinuca estava à luz de poucas lâmpadas, o que misturava a todos na penumbra, exigindo movimentos lentos, olhares demorados, pupilas dilatadas. a chuva caía, hora forte hora leve, na rua e da janela ouvíamos o seu som e víamos sua cor. o dono do bar, com barba na cara e um olhar risonho, de malandro gatuno, deixou o gerador tomando conta das cervejas. as músicas cantadas por três bebados felizes entoavam cada tacada. a ligação ao fim da noite, daquele que busca amores efêmeros e se contenta com eles.
ontem, meu olhar me mostrou várias formas de intensificar momentos e são essas formas que fazem a diferença na lembrança de cada um deles.