Num sopro

Embala a saia igual cirandeira
Curva as costas e quase fraqueja
Aspira a fumaça e logo esbraveja
Encontra um osso e quebra a cabeça
Rasteja no chão feito uma lesma.

Não sabe
Não sabe

Versos malvados e inchados joelhos
Mentira escancarada de vida inventada
É noite acordada é dia embolado
Resposta falseada verdade aceita
Baila baila e depois fala.

Não sabe
Não sabe
Vítima
Do conto poema.

Pablo Neruda

"Foi nessa idade que a poesia veio me buscar
Não sei de onde veio
Do inverno, de um rio.
Não sei como, nem quando.
Não, não eram vozes.
Nem eram palavras.
Nem silêncio.
Mas da rua fui convocado.
Dos galhos da noite abruptamente entre outros.
Entre fogos violentos voltando sozinho.
Lá estava eu sem rosto.
E fui tocado."

Tudo ao contrário

Te falei o que não pensava
Pra dizer o que não pensei
Tudo no perfeito momento
Não encontrado
dentro do espaço que não cabia.

Hoje eu acordei sem imagem sem som

A imagem forma sombras de sensações semelhantes vividas há muito tempo.
Os arrepios da contravenção revelam o que eu já sei.
O que me confunde são os sons, as ignorâncias repetidas como fossem interessantes.
O pecado impulsiona o corpo curioso.
O cheiro entranhado ao mesmo tempo que enjoa, enlouquece.
Me perco entre vontade e saudade e só me encontro quando acendo a luz.
Já não sinto a realidade aqui e me perpetuo na textura de algo incomparável.

Caminhante da noite azul

O que te move até a lua
Não te move, há esquinas
Ilusões guiam mais rápido
Que vento de tufão

E o caminhante da rua
Enlaça a lua
Em protesto de união

O que te move não te prende
É quase uma opção valente
Se não fosse felino ato
De uma fuga, diversão

E o caminhante da rua
Enlaça a lua
Em protesto de união