Jogando

Eu fiz um dado com seis lados
de cimento branco embolado

Eu não sabia que paredes de barro
eram mais difíceis de firmar tacos

ando muito realista, cientista
é no documento que encontro indícios
que persigo desde quando
tenho respostas e perguntas que se alinham
e muito desgosto
as pessoas são feias, eu também sou, pq seria diferente?

estou um pouco brava
calma mas brava
talvez seja a atitude científica

Vez em quando

Fui acometida por um intenso silêncio,
desses que chegam de fininho e se instalam sem que ninguém perceba
as horas passando, até que enfim se ouça a voz que não sai.
Vez em quando isso acontece e dessa vez o recebi na chegada,
sem dizer nada, apenas um olhar falante de reconhecimento.

eu colho água todo dia

eu fervo água todo dia
pela manhã e a noite
a tarde também
depois passo no coador
de pano
e na botella de ferro
esfria

O seu lugar impermanente

O primeiro deste ano abre as descobertas dos olhos atentos de quem tenta ver até enxergar. É verdade que ensaio um grito sobre as perguntas que atravessam o caminhar. São tantas que me calo sem saber qual balbuciar pela boca rouca de tanto cantar. São três as voltas que o mundo mostra quando quero chamar quem me ouve e tem pulso pra fazer girar. Sei algumas coisas outras preciso imaginar e quem sabe um dia alcanço a intenção de poder relaxar. Meus passos são mais lentos que meu pensar e agora onde estou é onde mesmo queria estar. Pode ser onde a alegria impera com tais cores misturadas entre meus pesares. É que bem sei e talvez possa até comentar que foi quando eu soube de ti que pude acreditar. Tem muita fumaça no querer bem entre as escolhas que eu faço em cada experimentar. Busco baixo e salto no alto com as pernas de quem ousa suspirar. Está bem próximo é o que me disseram ao acordar e eu acreditei como quem crê no esperar. A vontade de pedalar talvez seja mesmo meu direito de sonhar. Amanhã no meu acordar de ouvidos bem ligeiros ousarei me confortar nas ondas que um dia duvidei por não querer conflitar. Há uma borboleta brilhante insistindo em pousar na instabilidade do meu suar dia a dia pra poder fixar. Pensei ser tarde nas ruas de tempos outros que reconheço quando encontro outras vozes que me inspiram a acalmar. Quero a vida que posso conceber entre as roupas cheirosas que lavo no sol a queimar. Por entre as paisagens que agora completam meu olhar e quem sabe amanhã eu consiga aprofundar tais belezas que me envolvem em braços e abraços que acalmam meu respirar.

Hoje vou descansar.

Não costuma falhar

Quando voce se desloca
o estado que se evapora
é no caso ampliação

de longe avistar
distante do tato
o pulsar

e perceber tal qual folha
que cai pela vida afora

chão
sem chão
com cão
avião.

Liberdade

As expectativas são grandes
as possibilidades imensas
e eu pequena, ouso ser potência.

Transformar

Agora, depois de discursar em frente ao espelho
as lágrimas escorridas me lembram que viva sigo
com as ânsias e desejos nem sempre alcançáveis
e talvez esse não seja mesmo o caso.

Já vivi as emoções das minhas aspirações mais fatais
de ser tudo o que minha mente imagina
ao lado de quem me inspira com suas diferenças
tão lindas, tão duras, tão palpáveis.

Gosto de conversar
de digerir as palavras no meu tempo de cozimento
me alegro quando consigo me transformar
através do que meu corpo movimenta.

Dentro dos tropeços estruturais que me atravessam
estou disposta na curiosa mania de me encantar
com as belezas que vejo e que preciso enxergar
mesmo quando o rodo me empurra pro não-lugar
em cima do muro não quero ficar
e de lá eu sempre vou pular
porque sei que na caída
eu vou me transformar.

Embates da vida vivida

O gesto de ir
de um corpo
EM movimento
devir.

Ousar liberdade DENTRO dos encontros com o destino.

Matéria prima

Casca encrustada
quando olvidada
revive em sangue
torna-se cicatriz.

Uma aventura

Práticas demodês, aquele amor ressentido, resquícios autoritários, take my hand, amor teimoso que escraviza amedrontando levezas de pensamento e delicadeza de atos.

Os passos dados deixados em trilha marcada pra posteridade eram todos apagados pelo passar dos ventos. Soprando as cores, os detalhes e deixando tudo cru, realidade. Embalada em seu colo, eu sabia que as emoções emanadas e circundadas por aqueles braços quentes, tal qual fogo, é chama incandescente de conforto nunca mais sentido em dias frouxos. Mesmo quando se é solto se quer encostar. Uma verdade existencialista seguia, fazendo cócegas em meio a panos tão seda, tão linho, e a cada arrepio vinha também socorro acalentando, diluído A realidade já sentida implorava pra ser revivida e os sonhos, impalpáveis ventanias, balançavam, moviam as poeiras tão sólidas dessa grande fincadora de nós, estacas.

A criança ainda viva quer as nuvens, os ursinhos carinhosos, os travesseiros fofos confortando uma cabeça esfumaçada. A adulta pisa firme na terra pelos caminhos que a sensatez direciona. Ela corre e tende de uma certa maneira pro lado esquerdo. E isso faz dessa esticada pessoa, que com a cabeça nas nuvens se sente grande e com os pés no chão se sente rasa, uma imensidão de veias pulsantes bombando sua pureza essencial qual mito.

Absinto de um porvir que está no meio, sendo o que já não pode e o que ainda não é.

Apesar de todo drama, de toda dor, aqueles olhos me revelaram uma história de pura aventura.

Engraçado pensar que a minha porta abriu e não as do mundo todo. A do mundo todo.

Um café!

Fronteiras

Esse lugar que não consigo chegar
Deve guardar o que não consigo esquecer

Link permanente

É que a dança está em outro ritmo:
quando inicio perco o fim
quando findo perco o início
sem pausa nem porque.

Como num despertar
de gesto e movimento,
espreguiçar.

Respiro, percebo
e sinto tesão
mesmo que em vão.

Sempre que der

Queria um lugar pertinho do céu,
onde eu pudesse estender as mãos sem limites
e perder o olhar sob algo sublime.

Um lugar preferido por uns instantes repetidos.

Um lugar pra eu ser ausência.
Um lugar bonito pra eu visitar.

Sentinela

Ninguém me pediu nada
eu que subi no monte
e hasteei minha bandeira de guardiã
desde então travo lutas e trincheiras
tendo a espada em minhas mãos

muitas batalhas surgiram
descanso não há mais não
sentinela dos ventos
ganhei de presente um furacão

que me joga céu abaixo céu acima
e faz de mim um balão
responsabilidade é liberdade
de me ver assim
em suas mãos.

Um pé de fruta

Falta de sono estimulada por um buraco no peito. Meu? Tenho andado em círculos viciosos mas quero sair deste redemoinho. Encontrar esquinas e viradas de destino. Folhas ao vento estão tirando meu sono. E eu gosto muito de dormir. Meu peito arde feito sensação de frescor de eucalipto. Tatuagem ocupando um espaço vazio. Azul, rosa e roxo estimulam meu peito vazio. E neste espelho que me reconheço não existe espaço para meus antigos clichês. Porque de maneira profunda eu quero escolher. A cor da blusa, o perfume e o acontecer. Ventania não embala mais meu verão. Os galhos que dançam são meus impulsos. Eu sou uma árvore bonita. Um pé de fruta. 

Um buraco no peito

Uma imagem me intrigou:
aquele buraco em seu peito,
como vazio ficou?

Bem aqui perto de mim.

Onde o mar não serenou.

Esta imagem me intrigou.

Assim

Nunca serei
E isso é triste pra caramba

Meus medos

Bebi água pra ver se brotavam palavras
E os suspiros foram tão fundo que engoli desejos
Agora bocejo ao encontro do meu peito
Onde enraízam teus medos

[. ]

Talvez a poeta tenha morrido.
E a cineasta também.

Sei lá

Quando como ontem
Descartei  papel
Que sujo
Não me dizia que seria
Algo linda
Coisa rara
Vou dormir
Já não caibo
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